Sobre mudanças e organizações
Ao falarmos em sociedade, a
primeira percepção que nos vem à cabeça refere-se à um sentido de uniformidade.
Um conjunto de pessoas, que de forma institucionalizada, se organizam em prol da
unificação de interesses com vistas ao alcance de um bem-estar generalizado. E
apesar de muitas vezes falhas, estas construções sociais são elementos
essenciais para a formação da cultura, que é internalizada pelo indivíduo em
uma interação simbiótica onde esta o molda como ser único e coletivo em um
mesmo momentum temporal.
Entretanto, em um mundo cada
vez mais “global”, com uma mistura a ritmo exponencial, não é de se espantar
que existam ao mesmo ritmo transições culturais, em diversos níveis. E quando
partimos para a análise individual, precisamos levar em conta todos os moldes
anteriores aos quais estamos sujeitos, e como e por quê reagimos à novos moldes
nas formas das quais reagimos.
O artigo de Gonzalez e
Oliveira expõe as diversas situações enfrentadas pelos chamados “expatriados”,
que são pessoas que saem de seus países por motivações pessoais que não somente
econômicas. Optar por este “novo mundo” gera consequências na forma de agir e
pensar na identidade do “eu” ao longo deste processo, e é com base em modelos
previamente estabelecidos que delimitam as fases pelas quais estas pessoas
passam que o artigo, basicamente, se baseia.
Seja em modelos comportamentais
U-shaped ou J-shaped, a importância do processo de “reculturação”, ou
aculturação dependendo do caso é dada a medida em que a nossa identidade é tida
como um produto das interpretações dos códigos provenientes do ambiente externo
atrelada às necessidades de autoafirmação com o meio de convivência. E nos
processos de expatriação, este self-shock
pode ser considerado, a depender de outros aspectos intrínsecos à nossa
personalidade e percepções, um marco para profundas mudanças, ressignificações
e novas percepções sobre o eu.
Em paralelo ao que foi
discutido nesta abordagem, pode-se associar este processo às organizações e as
relações culturais e mudanças ocorridas nos diferentes contextos em que se
apresentam. Rodrigues analisa a expatriação de uma organização, que transita
entre basicamente duas culturas, e como também neste processo, o fato de seus
componentes acompanharem ou não o que lhes é imposto, é de extrema importância
na composição de suas identidades próprias, dado o nível de institucionalização
à qual estamos sujeitos.
Por isso é importante que a
organização esteja consciente, através de suas estratégias, acerca do nível de
penetração dos seus valores e qual significado isso pode ter para os que assim
tentam criar um por meio das relações de trabalho ali executadas. E com base nessas
mudanças, percebe-se que a ressignificação de valores é um processo tido como
complexo e multivariado. Os significados e as identidades adquiridas e
reproduzidas tendem a sofrer resistência quando confrontadas exata e
diretamente com os valores então já solidificados, ou como preferir, a
autoidentidade.
É curioso avaliar o quão
sensíveis somos às nossas próprias “ilusões” e modos de pensar. A tão sólida institucionalização
das nossas relações, citada no começo do texto como alicerce da nossa “maquina”
social pode ser instantaneamente desinstitucionalizada quando estas mesmas
ilusões estão sujeitas a mudanças bruscas, ou insensíveis. Ainda assim, no
campo organizacional, uma cultura atrelada às mudanças nas formas de poder gera
tantos impactos quanto uma simples mudança de país, pois tudo isso é só uma
questão de interpretar códigos, o que nos coloca em uma posição paradoxal onde
a nossa capacidade e intelectualidade em interpreta-los vai de encontro ao
processo pelo qual passamos quando sujeitos à uma reinterpretação.
Referências:
GONZÁLEZ, J. M. R.; OLIVEIRA, J. A. Os efeitos da expatriação sobre a identidade: estudo de caso. Cadernos EBAPE.BR, v. 9, n. 4, art. 10, p.1122-1135, 2011.
RODRIGUES, S. B. Cultura corporativa e identidade: desinstitucionalização em empresa de telecomunicações brasileira. Revista de Administração Contemporânea, v. 1, n. 2, p. 45-72, 1997.
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